Imagem
Reflexão
Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro
Pintura que retrata os momentos do primeiro contacto entre os colonizadores portugueses e os habitantes indígenas do território que hoje chamamos Brasil, mais especificamente, em Porto Seguro, Bahia.
A imagem é dividida em dois momentos que se opõem, seguindo o pensamento de binariedade ocidental: do lado direito, os navegadores portugueses, vestidos e empunhando bandeiras da cruz de malta, chegam a terra com uma postura que determina calma e racionalidade. Deste lado da imagem, as cores sugerem algo positivo e divino, trazendo luz azul e branca para a cena; e do outro, os indígenas brasileiros, com vestes que tapam apenas os seus orgãos sexuais (não terá sido esta uma escolha do autor?), em posições que indicam alvoroço e curiosidade. Deste lado da imagem são utilizados tons mais escuros e sombrios, procurando confundir as personagens com a própria mata.
A binariedade destas oposições (vestido/despido, reto/abaixado, luz/escuridão) são ideias presentes desde o primeiro momento da colonização e que pretendem demonstrar outros conceitos binários mais profundos. A construção do "Outro", do selvagem em oposição ao civilizado, do cristão em oposição ao pagão, serve, finalmente, para transmitir uma simples ideia: a superioridade do colonizador perante o colonizado. Só assim as atrocidades cometidas poderão ser justificadas.
O quadro foi realizado na virada do século XX, numa altura em que o governo de São Paulo queria adquirir e encomendar obras que ajudassem a construir uma narrativa ilustrada da nação brasileira, a fim de exaltar a nova República e o estado. Oscar Pereira da Silva, viu isto como uma oportunidade de se tornar um dos mais relevantes pintores brasileiros da época, o que nos levanta várias questões sobre a representação histórica que é aqui feita e os seus objetivos.
Obras como estas são muitas vezez utilizadas como evidência de acontecimentos históricos, ainda que tenha sido realizada séculos depois da real chegada de Pedro Álvares Cabral e, como qualquer outro tipo de representação artística, não passa de uma intrepretação - uma interpretação sujeita ao contexto social, político, económico e racial de quem as produz.